Racionalidade
Era um homem alto, barbudo, com o rosto todo molhado, e comia aquele sanduíche como se fosse salvar sua vida. Seu cheiro era um misto de euforia e gordura, alimentado pela pressa e desespero.
Ele nem me notou ao seu lado, implorando por uma mísera migalha daquele pão saborosíssimo. Continuei ao seu lado, enquanto o sanduíche ia desaparecendo juntamente com sua ansiedade. Porém, meu latido foi em vão. Ele se acalmou, alisou sua barriga saliente e me encarou apaticamente.
Fazia calor e eu ainda tinha esperanças de que aquele homem rude me lançasse com um olhar piedoso uma faísca de alimento. Nada aconteceu.
Furioso e decepcionado, virei-me em direção à rua e, quando dei um passo, um pedaço de salsicha apareceu em minha frente. Comi aquela salsicha com o mesmo fervor que o homem devorou o sanduíche, e quando percebi, o tal homem passou seus dedos entre meus pêlos e seguiu sua vida pacificamente.
É engraçado o jeito como animais de diferentes raças se comportam de maneiras inesperadas numa mesma situação. Quem é irracional?
Tamiris Adorna
Setembro de 2010